Afundamento do Cruzador General Belgrano

O afundamento do cruzador ARA General Belgrano ocorreu a 2 de maio de 1982, em consequência do ataque do submarino nuclear britânico HMS Conqueror, durante o conflito conhecido como a Guerra das Malvinas (Guerra das Falklands, para os britânicos). O afundamento do Belgrano causou a morte de 323 marinheiros argentinos,[1][2] praticamente metade de todas as baixas argentinas durante esse conflito,[3][4] e uma forte polêmica, visto que o ataque ocorreu fora da zona de exclusão estabelecida pelo governo britânico ao redor das ilhas. No Reino Unido há quem considere que a ação foi levada a cabo com o objetivo de inviabilizar as conversações de paz e aumentar a popularidade da primeira-ministra Margaret Thatcher junto da opinião pública britânica, enquanto que na Argentina muitos consideram o afundamento do cruzador como um crime de guerra.[5] Independentemente da controvérsia ao redor do afundamento, do ponto de vista militar ele cumpriu seu objetivo, pois ajudou a assegurar a superioridade naval dos britânicos, decisiva para o desfecho do conflito.[6]

É o único caso de um navio de guerra torpedeado e afundado em ação por um submarino nuclear e um dos dois casos de um navio de guerra afundado por qualquer tipo de submarino desde o fim da Segunda Guerra Mundial.[2][7]

Prelúdio

Lado argentino

Ficheiro:Marines surrender at Government House.jpg
Fuzileiros britânicos rendendo-se às tropas argentinas, na sequência da invasão das ilhas Malvinas, 2 de abril de 1982.

No início de março de 1982, a frota argentina ancorada em Puerto Belgrano entrou em estado de alerta devido ao endurecimento das relações diplomáticas com o governo britânico, por conta da soberania reclamada pela Argentina sobre as Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul.[8] Como consequência, teve início a preparação para que as unidades comprometidas com a ação pudessem zarpar com o objetivo de recuperar as ilhas. "Pediram-nos segredo total e absoluto relativamente a esta decisão, visto que o fator surpresa seria prioritário nesta manobra", comentou o comandante Héctor Bonzo sobre a primeira notificação recebida do Estado Maior da Armada Argentina sobre a ação bélica a empreender nas ilhas Malvinas.[9]

No dia 28 de março, a frota partiu da Puerto Belgrano com destino às ilhas Malvinas, que seriam atacadas e ocupadas pelas forças argentinas durante a madrugada de 2 de abril. O Belgrano foi o único navio que adiou a sua partida, devido aos reparos previstos em sua manutenção anual.[10] Os seguintes reparos estavam em andamento:

  • Retificação e nivelamento da artilharia;
  • Adequação dos sistemas de controle de tiro;
  • Ajuste de circuitos da unidade de controle dos mísseis antiaéreos de curto alcance Sea Cat;
  • Inspeção e manutenção dos motores;
  • Manutenção das caldeiras, eletricidade, auxiliares e controle de avarias;
  • Atualização dos equipamentos eletrônicos;
  • Tratamento para conservação do casco e da superestrutura.

Para além dos reparos previstos, foi embarcado um helicóptero Alouette III da Aviação Naval Argentina, aumentando assim a capacidade de vigilância do navio.[8]

Depois de adiar por duas vezes sua partida, o navio zarpou finalmente de Puerto Belgrano no dia 16 de abril, sob as ordens do comandante Héctor Bonzo. Sua tripulação era formada por oficiais, suboficiais, cabos, marinheiros, recrutas e dois voluntários civis encarregados da messe do navio. Em tempos de paz, a tripulação era composta por 750-770 homens, mas nesta ocasião o Belgrano contava com 1 093 homens.[11] O navio adotou três turnos de guarda rotativa, em que cada tripulante cumpria um turno de oito horas de guarda por dia, enquanto o navio não entrasse em combate. Desta forma, o navio permanecia em estado de alerta, operativo e com possibilidade de dar resposta imediata, com todos os sistemas e serviços. A missão original do navio era:[8]

O ARA General Belgrano na Base Naval Ushuaia, poucos dias antes do seu afundamento.
  • Navegar junto à costa até à Ilha dos Estados, a fim de ocultar intenções;
  • Cumprir tarefas relacionadas com a vigilância do acesso meridional ao teatro de operações (TOAS), interceptar unidades inimigas de acordo com ordens recebidas e dissuadir o inimigo na região;
  • Evitar o contato tático com unidades inimigas armadas com mísseis antinavio;
  • Caso necessário, e de acordo com a situação, reabastecer na Base Naval Ushuaia.

Depois de permanecer alguns dias patrulhando a zona da Ilha dos Estados, o Belgrano atracou na Base Naval Ushuaia às 18h30 do dia 22 de abril, para reabastecimento e troca de um lote de munição. Este porto seria o último lugar do território argentino por onde passaria o navio.[12] A embarcação partiu do porto na manhã do dia 24 de abril, reunindo-se quatro dias mais tarde, ao norte da Ilha dos Estados, com os contratorpedeiros ARA Piedra Buena e ARA Hipólito Bouchard e com um navio petroleiro da YPF, o Puerto Rosales, formando assim o "Grupo Tarefa 79.3" (GT 79.3).[8] Os contratorpedeiros tinham a missão de proteger o cruzador de inimigos de superfície, ataques aéreos e submarinos, formando uma cortina de proteção.[13] O Belgrano, enquanto nau capitânia do grupo, deveria manter-se na retaguarda, na zona entre os meridianos da Ilha dos Estados e do Banco Namuncurá.

No dia 29 de abril, entre as 9h00 e as 16h00, foi concluído de maneira satisfatória o reabastecimento de 125 toneladas de combustível por parte do Porto Rosales, numa manobra conhecida como "Operação LOGOS". Durante a tarde do dia 1 de maio, na sequência do início dos bombardeamentos navais e dos ataques aéreos britânicos às forças argentinas nas ilhas, o Belgrano recebeu ordens para navegar para leste em direção à zona a sul das ilhas Malvinas, deixando o Porto Rosales resguardado na Ilha dos Estados.[14] O "GT 79.3" seria o braço sul de uma manobra de pinça ao redor das ilhas visando a força tarefa britânica, enquanto o "GT 79.1", liderado pelo porta-aviões ARA Veinticinco de Mayo, seria o braço norte.[8][15]

O "GT 79.3" iniciou então o seu deslocamento em direção a leste, com a missão de desgastar os navios inimigos utilizando os mísseis antinavio de fabrico francês MBDA Exocet transportados pelos contratorpedeiros, enquanto o Belgrano atacava os navios britânicos danificados utilizando suas torres de canhões de seis polegadas. Os cenários avaliados pelo comandante Héctor Bonzo e seu estado-maior incluíam a entrada na denominada "Zona de Exclusão Total" (ZET) decretada pelos britânicos, contato tático com navios inimigos, rechaço de possíveis ataques aéreos e possíveis ataques de submarinos nucleares na zona de operações. Os submarinos nucleares britânicos eram particularmente temidos devido à sua velocidade e quase inesgotável capacidade de permanecer submergidos, que lhes dava uma superioridade inultrapassável face aos meios ao dispor dos argentinos.[8]

As ordens do "GT 79.3" indicavam a previsão de movimento até às 5h30 do dia 2 de maio, com um rumo 335º que o levaria até próximo da força tarefa britânica, que já se encontrava dentro da ZET. Uma avaria em um dos motores do porta-aviões ARA Veinticinco de Mayo[6] e condições atmosféricas desfavoráveis[16] levaram ao adiamento do ataque. Um relatório recebido pelo "GT 79.3" pela 1h00 deu a entender um possível cancelamento da operação, já que a frota britânica havia cessado os ataques aéreos contra Porto Argentino e Pradera de Ganso, além dos porta-aviões ingleses terem iniciado um movimento de afastamento das ilhas. A ordem de cancelamento definitivo do ataque chegou às 5h00, surpreendendo o "GT 79.3" em plena movimentação.[8] A mensagem do comando superior ordenava uma mudança das operações planejadas anteriormente, devendo o grupo dirigir-se a uma área mais a ocidente e esperar novas ordens. Assim, pelas 05h30, o Belgrano rumou a oeste,[8] tomando posição 100 milhas náuticas a oriente da Ilha dos Estados e 35 milhas naúticas a sul da ZET.

Lado britânico

Her Majesty's Naval Base (HMNB) Clyde, baía de Faslane, Escócia.

Na sequência da ação bélica empreendida pelos argentinos no dia 2 de abril de 1982, reclamando a soberania das ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, a Marinha Real Britânica enviou para o Atlântico Sul duas forças tarefa totalizando 108 embarcações,[17] com o objetivo de recuperar a soberania das ilhas ocupadas pelos argentinos: a "Força Tarefa 324" (TF 324), comandada diretamente a partir do Comando Estratégico em Northwood pelo almirante John Fieldhouse, composta pelos submarinos nucleares; e a "Força Tarefa 317" (TF 317), sob o comando operacional do contra-almirante Sandy Woodward, composta pelos porta-aviões (HMS Hermes e HMS Invincible), contratorpedeiros, fragatas, navios de transporte e restantes embarcações auxiliares.[17][18] Em 12 de abril, com a frota em plena movimentação, o Reino Unido declarou uma "Zona de Exclusão Marítima" (ZEM) de 200 milhas náuticas ao redor do arquipélago, dentro da qual qualquer embarcação militar argentina poderia ser atacada sem prévio aviso,[19] com o objetivo de impedir que a Argentina reforçasse a sua posição nas ilhas.[16]

O submarino nuclear HMS Conqueror, comandando por Christopher Wreford-Brown, zarpou da Her Majesty's Naval Base (HMNB) Clyde na Escócia com destino à Ilha Geórgia do Sul no dia 4 de abril. O HMS Conqueror percorreu uma distância que equivale a um terço do total da linha equatorial em pouco mais de duas semanas, chegando ao seu destino em 19 de abril.[14] Além de sua tripulação normal, havia sido embarcado um grupo de doze homens pertencentes ao Special Boat Service (SBS),[14] cuja missão estava planejada para ser um "golpe de mão" na retomada da ilha. Apesar dos contratempos iniciais, a operação de reconquista da ilha (Operação Paraquet) foi concluída com sucesso no dia 25 de abril.[20]

No dia 28 de abril, o HMS Conqueror recebeu ordens para navegar em direção a oeste com a missão de patrulhar a zona em busca de navios inimigos,[14] após ter sido recebida inteligência indicando a presença de navios argentinos ao norte da Ilha dos Estados. Alcançou a posição planejada dois dias depois (30 de abril), numa altura em que as unidades mais relevantes da força britânica já se encontravam em posição junto das ilhas Malvinas. Com sua posição assim consolidada, o Reino Unido declarou uma "Zona de Exclusão Total" (ZET), com a mesma área da ZEM declarada anteriormente, dentro da qual qualquer embarcação ou aeronave poderia ser atacada sem prévio aviso.[20]

HMS Invincible regressando ao Reino Unido após o fim da guerra, 20 de junho de 1982.

Nessa mesma noite, o HMS Conqueror obteve contato, usando seu sonar de longo alcance, com um grupo de navios navegando em formação longe das rotas comerciais, pelo que o comandante Wreford-Brown ordenou que fosse feita a aproximação até à distância de alcance visual. Na manhã do dia 1 de maio, o submarino localizou em seu periscópio o "GT 79.3" em plena fase de reabastecimento de combustível.[14][21] O grupo tarefa argentino encontrava-se fora da ZET, pelo que o HMS Conqueror não tinha autorização para atacar,[14][21] visto que de acordo com as regras de engajamento da "TF 324" apenas o porta-aviões ARA Veinticinco de Mayo poderia ser atacado fora da ZET.[18] Deste modo, o submarino britânico limitou-se a seguir o "GT 79.3" de perto enquanto este rumava a leste, em direção à zona a sul das ilhas Malvinas.[21]

Durante a manhã do dia 1 de maio, os britânicos iniciaram os bombardeamentos navais e os ataques aéreos contra alvos militares nas ilhas. A aviação argentina reagiu à ofensiva, sofrendo baixas importantes às mãos dos BAE Sea Harrier do HMS Hermes e do HMS Invincible, enquanto a Armada Argentina se posicionava para atacar a "TF 317".[16] O contra-almirante Sandy Woodward foi informado pelo HMS Conqueror da movimentação do grupo tarefa do Belgrano e recebeu inteligência indicando que o grupo tarefa do ARA Veinticinco de Mayo se aproximava pelo norte.[16] Adivinhando a intenção dos argentinos de realizar uma manobra de pinça ao redor das ilhas, com o porta-aviões atacando pelo norte e o cruzador pelo sul,[7][16] Woodward ordenou às suas forças que assumissem posições mais defensivas.[16] Era tudo que podia fazer, pois não estava em condições de agir contra os navios de guerra argentinos; o ARA Veinticinco de Mayo era o alvo preferencial, mas a localização exata do porta-aviões argentino permanecia incerta; quanto ao Belgrano, estava a ser seguido pelo HMS Conqueror, cujas restritivas regras de engajamento não lhe permitiam atacar o cruzador fora da ZET.[16][18] Face a esta situação, Woodward solicitou ao Comando Estratégico em Northwood que autorizasse o HMS Conqueror a atacar o Belgrano, com o argumento de que este constituía uma ameaça à força tarefa.[7][22] O almirante John Fieldhouse e o Chefe do Gabinete de Defesa, o almirante da Armada Terence Lewin, se deslocaram então à residência campestre de Chequers, próxima a Londres, buscando apoio político para a alteração das regras de engajamento da "TF 324".[16][18] Após consultar os restantes membros do Gabinete de Guerra, a primeira-ministra Margaret Thatcher autorizou a alteração e o consequente afundamento do ARA General Belgrano, apesar de entretanto o "GT 79.3" ter abandonado a posição de ataque e rumado a ocidente.[7][8]

Afundamento

O ARA General Belgrano minutos antes de se afundar, 2 de maio de 1982.

Pelas 14h00 do dia 2 de maio, o HMS Conqueror foi autorizado a atacar o ARA General Belgrano pelo Comando Estratégico em Northwood. Às 15:57, o submarino britânico disparou três torpedos convencionais Mark 8 a partir de uma distância de aproximadamente dois quilômetros.[23] O HMS Conqueror estava equipado com os modernos torpedos teleguiados Mark 24 Tigerfish, mas existiam dúvidas quanto à sua fiabilidade, pelo que o comandante Wreford-Brown optou por usar os mais antigos e potentes Mark 8 de 21 polegadas, armados com uma carga de explosivo torpex de 365 kg,[24] que tinham maiores chances de penetrar os bem protegidos costados do cruzador.[16]

Em nenhum momento o "GT 79.3" se deu conta que o ataque era iminente. Às 16:01, enquanto os artilheiros de guarda no Belgrano testavam equipamentos e movimentavam a torre II em busca de possíveis alvos no horizonte, o navio foi sacudido por uma violenta explosão, seguida de uma quebra de energia e do corte da iluminação.[8] O torpedo penetrou o casco do Belgrano antes de explodir no interior da casa das máquinas de popa, destruindo o sistema elétrico, interrompendo a força motriz e inutilizando o gerador de emergência.[25] Uma bola de fogo atravessou as cobertas do navio, destruindo a messe[8][26] e abrindo um buraco com cerca de vinte metros de diâmetro na coberta principal, provocando a morte de cerca de 275 homens. Dois minutos mais tarde, um segundo torpedo atingiu a proa do Belgrano, provocando uma explosão que levou ao desprendimento de cerca de quinze metros da proa do navio.[8] O terceiro torpedo disparado pelo HMS Conqueror errou o alvo e explodiu junto ao casco do ARA Hipólito Bouchard, sem causar grandes danos.[21]

Em escassos minutos, as equipes responsáveis pelo controle de avarias constataram que os postos de combate do controle de avarias haviam sido gravemente afetados pelas explosões e se encontravam numa situação crítica, e que os danos causados ao navio eram demasiado graves para serem controlados com os meios à disposição.[8] Foi então iniciada a abertura das portas estanques que conduziam à coberta principal para agilizar a evacuação dos tripulantes das cobertas inferiores, que devido ao corte da iluminação foi efetuada usando apenas pequenas lanternas individuais. A tarefa de evacuação foi ainda dificultada pelo fato das zonas afetadas pelas explosões dos torpedos se terem enchido rapidamente de fumaça e da rede de alto-falantes estar fora de operação.[27] Os elementos da tripulação que chegavam à coberta principal assumiam sua posição junto às estações de evacuação pré-definidas, seguindo as ordens que eram transmitidas por meio de alto-falantes manuais.[8] Os tanques de combustível do helicóptero foram lançados ao mar, para que não explodissem.

Comandante Héctor Bonzo

Às 16h10, o navio estava já inclinado 10º a bombordo, e a inclinação aumentava à razão de 1º por minuto. Apesar das anteparas internas terem resistido às explosões, a água que entrava pelo rombo causado pelo primeiro torpedo não podia ser bombeada para fora do navio devido à quebra de energia, pelo que o cruzador começou a afundar pela popa.[8] Por precaução, os marinheiros começaram a lançar à água as balsas salva-vidas, que se abriram automaticamente ao cair no mar e ficaram flutuando próximas ao navio presas por amarras. O navio dispunha de 72 balsas salva-vidas, sendo que 62 eram suficientes para receber todos os tripulantes e as restantes de reserva. Na enfermaria, localizada na terceira coberta, o trabalho de primeiros socorros foi intenso, pois da popa do navio chegavam muitos homens com queimaduras graves, cobertos de petróleo e com princípios de asfixia devido à fumaça. A equipe médica do navio percorreu ainda as cobertas inferiores, verificando os camarotes para que não ficassem feridos abandonados. Quando não restava nenhum ferido na enfermaria e todos os camarotes haviam sido verificados, a equipe foi para a coberta principal. Vários tripulantes desceram às cobertas inferiores para tentar ajudar os seus companheiros, e alguns perderam a vida nessa tentativa. Outros, na pressa de abandonar o navio, chegaram à coberta principal sem vestuário apropriado para enfrentar as condições meteorológicas, pelo que foi improvisado uma espécie de poncho com as mantas de das camas.[8]

O comandante Héctor Bonzo adiou o abandono do navio enquanto foi possível face à tormenta que assolava o Atlântico Sul e na expectativa de mais marinheiros puderem escapar do interior do navio,[28] mas às 16h23 deu finalmente ordem de abandonar o navio.[8][29] As ondas dificultaram a visão e a comunicação entre as balsas salva-vidas, motivo pelo qual algumas ficaram sobrecarregadas com mais de trinta pessoas enquanto outras não tinham mais de três pessoas. Às 16h50, a inclinação de 60º prenunciava o afundamento e, em dez minutos, o cruzador foi engolido pelas águas do Oceano Atlântico.[2][8]

Operação de resgate

Operação de resgate
Navio Sobreviventes Mortos Total
ARA Francisco de Gurruchaga 363 2 365
ARA Bahía Paraíso 70 18 88
ARA Hipólito Bouchard 64 0 64
ARA Piedra Buena 273 0 273
Belokamensk 0 3 3
TOTAL 770 23 793

O ARA Piedra Buena e o ARA Hipólito Bouchard desconheciam o que estava a passar com o Belgrano, visto que a quebra de energia após o impacto do primeiro torpedo impediu a emissão de um pedido de socorro via rádio e as condições meteorológicas adversas os impediram de ver os foguetes de socorro e os sinais de luzes do cruzador. Para além disso, embora fosse óbvio que o grupo tinha sido atacado por um submarino, nenhum dos navios argentinos logrou detectar o HMS Conqueror com os seus sonares devido à sua tecnologia superior;[31] enquanto o HMS Conqueror realizava manobras evasivas e se afastava do local do ataque, os dois contratorpedeiros argentinos começaram a lançar cargas de profundidade,[16] mas devido ao receio de novos ataques não tardaram a rumar em direção ao continente.[21] Por esse motivo, demorou algum tempo até se aperceberem de que algo tinha acontecido ao Belgrano. Logo que a notícia chegou ao continente, o ARA Piedra Buena recebeu ordens para regressar a toda força ao ponto de contato, onde se presumia ter ocorrido o ataque, enquanto o ARA Hipólito Bouchard permanecia à distância.[32] Na operação de busca participaram ainda dois aviões P-2 Neptune, um Fokker F28, um L-188 Electra, o aviso ARA Francisco de Gurruchaga e o navio polar ARA Bahía Paraíso.[33][34]

Sobreviventes cantando o hino em Puerto Belgrano, 5 de maio de 1982.

Entretanto, escurecera e as condições meteorológicas haviam se agravado,[35] o que dificultou o avanço dos navios de busca e espalhou as balsas salva-vidas. O ARA Piedra Buena foi o primeiro navio a chegar ao ponto de contato, não tendo encontrado nenhum sinal quer do Belgrano quer das balsas salva-vidas.[36] Pelas 9h00 do dia seguinte (3 de maio), o avião "Neptune 2-P-111", comandado pelo capitão Pérez Roca, avistou uma grande mancha de petróleo no mar, mas continuava a não haver sinais das balsas salva-vidas.[37] Por fim, por volta das 13h00, o suboficial Ramón Leiva, a partir da bolha de perspex que o Neptune possui em seu nariz, estabeleceu contato visual com um grande número de balsas salva-vidas espalhadas por uma área com aproximadamente duas milhas náuticas de extensão,[38] cerca de cem quilómetros a sudeste do ponto de contato.[34][36]

O Neptune assinalou sua presença aos sobreviventes nas balsas salva-vidas e transmitiu sua posição aos navios envolvidos nas buscas, que convergiram de imediato para a zona indicada. Cerca de vinte e quatro horas após o afundamento do Belgrano, foi iniciado o trabalho de resgate dos sobreviventes, dificultado pela escuridão e pelas ondas de dez metros provocadas pela tormenta que continuava a assolar a região.[39] Na maioria das balsas salva-vidas com apenas quatro ou cinco homens, foram encontrados mortos;[40] nas balsas salva-vidas com maior número de homens, o calor humano partilhado permitiu-lhes sobreviver, mas muitos apresentavam princípios de congelamento, principalmente nas pernas. Os trabalhos de resgate prosseguiram pela noite dentro, tendo os últimos sobreviventes sido resgatados já durante a madrugada do dia 4 de maio.[34]

Os navios de resgate com os sobreviventes chegaram ao Porto de Ushuaia na madrugada de 5 de maio. Depois do processo de identificação estar concluído, foram transportados por via aérea para Puerto Belgrano, onde seus familiares e amigos os esperavam.[34][41]

A operação de busca estendeu-se até o dia 9 de maio, quando se considerou impossível que houvesse mais sobreviventes ou cadáveres na zona.[34][42] No total, os navios de resgate recolheram 793 tripulantes, entre os quais 23 mortos.[2][34]

Consequências

Politicamente, o afundamento do ARA General Belgrano foi danoso para o Reino Unido, pois o ataque pareceu desproporcionado e as circunstâncias sugeriam que os britânicos não estavam a seguir as suas próprias regras.[16] Para além disso, o afundamento ocorreu quatorze horas após o Presidente do Peru, Fernando Belaúnde Terry, ter apresentado uma proposta de plano de paz e apelado à unidade regional, embora Margaret Thatcher tenha negado que a mesma tenha chegado às suas mãos antes do ataque ter ocorrido.[44] As consequências diplomáticas do ataque levaram o Reino Unido a encarar as iniciativas de paz mais seriamente do que antes,[16] mas o governo argentino endureceu sua posição e rejeitou a proposta de plano de paz peruana, apesar do Reino Unido ter indicado a sua aceitação em 5 de maio.[20] Os britânicos continuariam a apresentar propostas de cessar-fogo até 1 de junho, sem sucesso.[20]

Independentemente das consequências políticas e diplomáticas do afundamento, do ponto de vista militar ele cumpriu seu objetivo; tanto os contratorpedeiros que acompanhavam o Belgrano como o grupo tarefa do porta-aviões ARA Veinticinco de Mayo abandonaram a zona, pondo fim à ameaça que sua manobra de pinça representava para a força-tarefa britânica. Mais importante ainda, o receio dos submarinos nucleares britânicos levou os restantes navios da Armada Argentina a regressar aos seus portos, de onde não voltariam a sair durante o conflito. "Com a chegada dos submarinos nucleares britânicos, deixou de haver lugar (para a Armada Argentina) nos mares", afirmou o então Chefe do Comando Atlântico dos Estados Unidos, o almirante Harry Train.[6]

Com os navios de guerra fora do conflito, coube à aviação argentina o papel principal na defesa das ilhas. Apesar das pesadas perdas infligidas à força britânica, a retirada da Armada Argentina na sequência do afundamento do Belgrano deu à Marinha Real Britânica o domínio dos mares, que seria decisivo para o sucesso da ofensiva britânica. "Com isso praticamente acabou a guerra", afirmou o então embaixador norte-americano em Buenos Aires, Harry Shlaudeman. "Com ela (a Armada Argentina) fora do conflito, como poderiam abastecer as suas tropas? Impossível."[6]

Controvérsia sobre o afundamento

Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica de 1979 a 1990.

O afundamento do Belgrano gerou grande controvérsia. A morte de 323 marinheiros argentinos em consequência do ataque não foi bem recebida pela comunidade internacional, tendo-se tornado numa cause célèbre para os opositores à guerra, como o deputado trabalhista Tam Dalyell. O afundamento do Belgrano é considerado por muitos como um uso desproporcionado da força sobre um navio obsoleto com muitos tripulantes a bordo, na sua maioria recrutas. Aqueles que defendem que o navio não constituía uma ameaça à frota britânica e que o seu afundamento era desnecessário se baseiam sobretudo no fato do navio estar fora da "Zona de Exclusão Total" (ZET) e de se estar a afastar das ilhas Malvinas no momento do ataque.

No Reino Unido há ainda quem considere que a ação foi levada a cabo com o objetivo de inviabilizar as conversações de paz e aumentar a popularidade de Margaret Thatcher junto da opinião pública britânica, enquanto que na Argentina muitos consideram o afundamento do cruzador como um crime de guerra.[5]

Situação legal

O Belgrano foi afundado fora da zona de exclusão definida pelos britânicos ao redor das ilhas Malvinas. Historicamente, as zonas de exclusão são declaradas em benefício de embarcações neutrais; segundo o direito internacional, durante uma guerra a localização e rumo de uma embarcação beligerante é irrelevante. A tese de que o afundamento do cruzador constituiu um crime de guerra nunca foi subscrita pela Armada Argentina, cuja posição é que o cruzador estava "onde devia estar" e "numa ação de combate".[45] O governo argentino reconheceu o afundamento do ARA General Belgrano como um ato de guerra legítimo em 1994.[45][46][47]

Vários oficiais argentinos envolvidos no conflito também já legitimaram publicamente a ação do submarino HMS Conqueror. O almirante Enrique Molina Pico, ex-Chefe do Estado-Maior General da Armada Argentina, numa carta publicada no jornal argentino La Nación em 2 de maio de 2005, afirmou que o Belgrano fazia parte de uma operação que constituía uma ameaça real à força tarefa britânica, que se mantinha afastado por razões de ordem tática e que o fato de se encontrar fora da ZET era irrelevante já que se tratava de um navio de guerra numa missão tática;[48] o comandante Héctor Bonzo, capitão do Belgrano, numa entrevista em maio de 2003, admitiu que a manobra de afastamento da força tarefa britânica era temporária, e que a missão do cruzador era atacar;[47] e o capitão de fragata Pedro Galazi, segundo em comando do Belgrano, em declarações prestadas aos jornais argentinos Clarín e La Capital em outubro de 2005, assinalou que os dois países se encontravam em guerra e que não faz sentido dizer que os britânicos não deveriam atacar porque o cruzador estava fora da zona de exclusão. "A zona de exclusão é um diagrama geográfico importante em situações de bloqueio, mas não em uma guerra", esclareceu.[23][45]

Navio estava fora da zona de exclusão

Mapa publicado no jornal argentino Clarín. O círculo preto com o número "1" indica o local do afundamento do ARA General Belgrano.

O debate sobre a legitimidade do ataque começou quando foi revelado um mapa da época, preparado pela inteligência norte-americana, marcando a última posição do Belgrano trinta milhas náuticas a sul do limite da ZET.[6] Apesar do navio estar fora da zona de exclusão, ambos os lados estavam conscientes de que esse já não era o limite da ação britânica. No dia 23 de abril, o governo britânico enviou uma mensagem ao governo argentino através da embaixada suíça em Buenos Aires, esclarecendo que, independentemente do estabelecimento da zona de exclusão, qualquer embarcação ou aeronave argentina que representasse uma ameaça para as forças britânicas poderia ser atacada.[48][49] Entrevistas levadas a cabo por Martin Middlebrook para o seu livro, The Fight for the "Malvinas", indicaram que os oficiais da Armada Argentina entendiam que o objetivo da mensagem era esclarecer que embarcações e aeronaves argentinas operando perto da zona de exclusão poderiam ser atacadas. "Depois da mensagem de 23 de abril todo o Atlântico Sul se tornou num cenário operacional para os dois lados. Nós, como profissionais, apenas dissemos que foi uma pena termos perdido o Belgrano", afirmou o contra-almirante Walter Allara, responsável pelo grupo tarefa do qual o Belgrano fazia parte.[49]

Da parte dos britânicos, o contra-almirante Sandy Woodward, comandante operacional da "TF 317", esclareceu que não podiam permitir que um navio de guerra argentino ficasse próximo da zona de exclusão e iniciasse um ataque a partir deste ponto.[6] No seu livro, One hundred days: the memoirs of the Falklands Battle Group Commander, Woodward deixa claro que o Belgrano, enquanto parte do braço sul de uma manobra de pinça ao redor das ilhas visando a força tarefa britânica, representava uma ameaça às suas forças e tinha de ser neutralizado.[22]

Chefes militares e políticos desconheciam a mudança de rumo do navio

O historiador britânico Lawrence Freedman afirmou, no segundo volume da sua obra, Official History of the Falklands, que os chefes militares e políticos não foram informados da mudança de rumo do Belgrano antes do navio ter sido atacado. Segundo Freedman, essa informação foi enviada pelo HMS Conqueror ao Comando Estratégico em Northwood quatro horas antes do ataque, mas não terá sido transmitida nem ao contra-almirante Sandy Woodward nem ao governo de Margaret Thatcher.[6][16]

De qualquer forma, é improvável que informação tática, tal como o rumo e a velocidade de navios inimigos, fosse incluída em relatórios destinados às chefias políticas, pois, segundo Woodward, decisões estratégicas são tomadas com base na posição e na capacidade. "A velocidade e a direção de um navio inimigo podem ser irrelevantes, pois ambas podem mudar rapidamente. O que conta é sua posição, sua capacidade e aquela que acredito ser sua intenção", afirmou.[22]

Alteração das regras de engajamento

Monumento Nacional aos Caídos nos Acontecimentos das Ilhas Malvinas e do Atlântico Sul, Praça San Martín, Buenos Aires.

Enquanto parte da "TF 324", o HMS Conqueror possuía regras de engajamento diferentes das embarcações de superfície que compunham a "TF 317"; Woodward havia sido autorizado a atacar qualquer navio ou aeronave argentina que constituísse uma ameaça à "TF 317", mas os submarinos nucleares da "TF 324" estavam sujeitos a regras de engajamento bem mais restritas.[16][18] Um fator que contribuiu para a polêmica gerada em redor do afundamento foi o fato das regras de engajamento da "TF 324" terem sido especificamente alteradas para permitir que o HMS Conqueror atacasse o Belgrano fora da ZET.[22]

Na realidade, essa não foi a primeira vez que as regras de engajamento da "TF 324" foram alteradas durante o conflito. Inicialmente, a "TF 324" apenas estava autorizada a atacar embarcações argentinas dentro da ZEM. Uma semana antes do afundamento do Belgrano, os chefes militares haviam convencido o Gabinete de Guerra de Margaret Thatcher a alterar as mesmas para permitir aos submarinos nucleares atacar o porta-aviões ARA Veinticinco de Mayo fora da ZEM, com o argumento de que o alcance de seus aviões constituía uma ameaça para os navios britânicos.[16]

Içamento da Jolly Roger

Suscitou polêmica nos meios argentinos o fato do HMS Conqueror, ao retornar à sua base em Faslane, ter içado a Jolly Roger (a bandeira pirata, com uma caveira branca e dois torpedos cruzados brancos em fundo preto). Essa ação foi esclarecida pela Marinha Real Britânica, que explicou que para seus submarinos esse ato é um símbolo histórico do afundamento de navios inimigos.[7]

Gotcha

A manchete do tabloide The Sun de 4 de maio de 1982, "Gotcha" ("Te pegamos"), é provavelmente a mais notável (e notória) manchete de um jornal britânico sobre o incidente. O editor do The Sun, Kelvin MacKenzie, terá usado como inspiração para a manchete uma exclamação de improviso do editor responsável Wendy Henry, quando chegaram os primeiros relatórios de que um cruzador argentino havia sido afundado por um submarino britânico. Após as primeiras edições terem sido impressas, surgiram novos relatórios sugerindo que todos os tripulantes teriam morrido, e MacKenzie suavizou a manchete em edições posteriores para "Did 1200 Argies drown?" ("Será que 1200 argentinos se afogaram?"). Apesar da sua notoriedade, poucos leitores no Reino Unido viram a manchete em primeira mão, visto que esta só foi usada nas primeiras edições no norte do país; no sul do país e nas edições posteriores no norte foi usada a manchete suavizada.[50] Ainda assim, MacKenzie foi condenado por alguns comentadores que sentiram que glorificava uma chacina e a manchete causou uma tempestade de controvérsia e protestos.

Controvérsia política no Reino Unido

Monumento aos Caídos no Afundamento do ARA General Belgrano, Parque Centenario, Buenos Aires.

A política económica do governo de Margaret Thatcher havia custado ao Partido Conservador muita da sua popularidade antes do início da guerra, e parecia certo que seria superado nas eleições de 1983 pelo Partido Trabalhista ou pelo Partido Liberal e seus aliados. A decisão de desencadear uma operação militar em larga escala após a invasão das ilhas pelos argentinos foi arriscada, mas a vitória no conflito teve um forte impacto na opinião pública britânica e foi um dos principais fatores que conduziram à reeleição de Thatcher.[44] A forma como o Partido Conservador usou o resultado da guerra a seu favor durante essas eleições acentuou a politização da controvérsia sobre o afundamento do Belgrano, com os opositores ao governo afirmando que o ataque teria sido ordenado por Thatcher com o objetivo de inviabilizar as conversações de paz e aumentar a sua popularidade junto da opinião pública britânica.[16][18]

Em maio de 1983, Thatcher apareceu em direto num programa do canal de televisão britânico BBC One, onde Diana Gould, uma professora de geografia de Gloucestershire, a questionou insistentemente sobre o afundamento do Belgrano, alegando que o navio não constituía uma ameaça à frota britânica e que foi atacado quando se afastava das ilhas. Gould alegou ainda que o governo já deveria ter conhecimento da proposta de plano de paz apresentada quatorze horas antes do ataque pelo Presidente do Peru, Fernando Belaúnde Terry, e que a escalada da guerra poderia ter sido evitada. Thatcher respondeu que o cruzador constituía uma ameaça aos navios britânicos e negou que a proposta de plano de paz peruana tenha chegado às suas mãos antes do ataque ter ocorrido. "Penso que apenas no Reino Unido é possível que um primeiro-ministro seja acusado por afundar um navio inimigo, quando a minha principal motivação foi proteger os nossos marinheiros. Essa foi a minha principal motivação, e tenho muito orgulho nisso", declarou Thatcher durante a entrevista.[44][51]

Ações legais

Em 1993, o afundamento do ARA General Belgrano foi denunciado pelos familiares das vítimas à Comisión Investigadora de las Violaciones a los Derechos Humanos, dependente do Ministério da Defesa da República Argentina, como um crime de guerra desnecessário. A Comissão decidiu que o afundamento do Belgrano não seria objeto de investigação, o que causou grande polêmica visto que a resolução ministerial nº 220 de 2 de junho de 1993 é taxativa ao dizer que a Comissão Investigadora "se destina a investigar a possível existência de atos violatórios das normas vigentes em matéria de direitos humanos, durante e depois dos episódios bélicos acontecidos nas Malvinas e no Atlântico Sul a partir de 2 de abril de 1982".

Em 2 de julho de 2000, Luisa Diamantina Romero de Ibanez e Roberto Guillermo Rojasos, familiares de duas das vítimas do afundamento do cruzador, apresentaram queixas contra o governo britânico no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, alegando que o ataque ao ARA General Belgrano violou o "direito à vida" dos seus filhos, sob o artigo segundo da Convenção Europeia dos Direitos Humanos. As queixas foram indeferidas com base nos argumentos de que foram apresentadas demasiado tarde e que os queixosos não tinham esgotado os recursos legais ao seu dispor nos tribunais britânicos.[5][46] No entanto, associações de veteranos de guerra argentinos continuam a pressionar o seu governo para levar o caso ao Tribunal Internacional de Justiça e acusar a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher de crimes de guerra.[46]

Memória

O comandante Victor Cooper e seus oficiais, do USS Pearl Harbor, prestam homenagem a um memorial dedicado ao ARA General Belgrano em Puerto Belgrano, durante a solenidade dos 25 anos do seu afundamento, 2 de maio de 2007.

Todos os anos, no dia de 2 de maio, são realizados no território argentino diversos atos e cerimônias religiosas para perpetuar a memória dos 323 mortos, às quais assistem sobreviventes e familiares das vítimas.[52] Em 1998 foi realizada uma viagem até a zona do afundamento, onde familiares e sobreviventes jogaram flores e cartas ao mar para homenagear os caídos,[53] e em 1999 o almirante Michael Boyce, First Sea Lord da Marinha Real Britânica, visitou a Base Naval de Puerto Belgrano e homenageou aqueles que morreram.[54] No dia 3 de maio de 2001, durante uma homenagem realizada no Congresso da Nação Argentina, foram entregues diplomas aos familiares e sobreviventes, e o ponto do afundamento foi declarado como lugar histórico nacional e túmulo de guerra.[55]

Muitas solenidades e homenagens ao navio e aos mortos são realizadas por ação da Asociación Amigos del Crucero ARA General Belgrano, que reúne membros e familiares das tripulações do navio ao longo da sua carreira ao serviço da Argentina, assim como homens, mulheres e instituições que desejam manter viva a memória do cruzador e apoiar aqueles afectados pelo afundamento.[56] O último capitão do Belgrano, o comandante Héctor Bonzo, para além de ter ajudado a fundar a associação,[57] escreveu as suas memórias do afundamento no livro 1093 Tripulantes del Crucero ARA General Belgrano, publicado em 1991.

Atualmente, mais de 80 escolas levam o nome do cruzador ARA General Belgrano ou de seus tripulantes.[58]

Monumentos

Decretos e leis

  • Ordenança municipal nº 51.481/97, de 21 de agosto de 1997: estabelece que no dia 2 de maio a bandeira seja içada a meio mastro em homenagem aos mortos no afundamento do cruzador ARA General Belgrano, em todas as escolas dependentes do Governo da Cidade de Buenos Aires.[60][61]
  • Decreto nº 745/98, de 26 de junho de 1998: declara o dia 2 de maio como "Dia Nacional do Cruzador ARA General Belgrano" em memória de todos os tripulantes que morreram em consequência do ataque sofrido por esse navio da Armada Argentina, durante o conflito bélico do Atlântico Sul.[2][62]
  • Lei nº 586/01, de 18 de maio de 2001: declara o dia 2 de maio como o "Dia dos Tripulantes do ARA General Belgrano" em todas as escolas dependentes do Governo da Cidade de Buenos Aires. Estabelece ainda a inclusão no calendário escolar de atividades comemorativas ao afundamento do navio e que a bandeira seja içada a meio mastro nesse dia, em homenagem aos mortos no afundamento do navio.[61]
  • Lei nº 25.546/02, de 27 de novembro de 2001: declara como lugar histórico nacional e túmulo de guerra a área onde se encontram os destroços do ARA General Belgrano.[63][64]

Expedição ao local do afundamento

Monumento aos Caídos na Guerra das Malvinas, Ushuaia, Terra do Fogo. Inscrição: "O povo de Ushuaia a quem… com seu sangue regou as raízes da nossa soberania sobre as Malvinas. voltaremos!!!".

Em março de 2003, o explorador norte-americano Curt Newport liderou uma expedição marítima da National Geographic Society ao Atlântico Sul, com o objetivo de localizar o Belgrano com recurso ao sonar e enviar um veículo subaquático operado remotamente (ROV), o Magellan, para filmar os destroços. A expedição foi preparada em colaboração com a Armada Argentina, que enviou uma embarcação para acompanhar o navio ao serviço da National Geographic, o Seacor Lenga.[46][65] Da expedição fizeram parte quatro veteranos do afundamento, dois argentinos e dois britânicos, incluindo o segundo em comando do Belgrano, o capitão de fragata Pedro Galazi.[65][66]

Newport focou as suas buscas numa área com 750-800 km² localizada a cerca de 100 milhas náuticas a oriente da costa da Terra do Fogo, onde acreditava que o navio se encontra, a cerca de 4 200 m de profundidade.[64][67] Após duas semanas no mar enfrentando ondas de 9 m e ventos de 110 km/h, a expedição abandonou a busca sem encontrar qualquer rasto do Belgrano.[66][67] As condições meteorológicas adversas e a profundidade do oceano foram os grandes obstáculos à expedição, que não chegou sequer a lançar à água o ROV Magellan.[64][66]

Durante a expedição, foi realizada na zona do afundamento uma cerimónia promovida pela Armada Argentina, em homenagem aos mortos durante o conflito das Malvinas.[65][66] A viagem e os acontecimentos ocorridos durante a expedição deram origem a um documentário de duas horas para o National Geographic Channel, que inclui ainda trechos de entrevistas a vinte veteranos argentinos e britânicos da Guerra das Malvinas.[65]

Controvérsia sobre a expedição

A expedição gerou grande controvérsia entre os grupos que representam os sobreviventes e os familiares das vítimas do afundamento do cruzador. Enquanto alguns consideraram a iniciativa uma profanação da memória dos mortos, outros esperavam que fossem descobertas evidências que apoiassem a tese de que o afundamento do Belgrano constituiu uma violação do direito internacional.[46]

Os dois maiores grupos que representam os veteranos argentinos da Guerra das Malvinas se mostraram irritados por não terem sido consultados acerca da expedição e acusaram a Armada Argentina de ignorar a lei que declara os destroços do Belgrano como lugar histórico nacional e túmulo de guerra. Rubén Rada, presidente da Federação dos Veteranos de Guerra Argentinos, exigiu garantias de que a expedição "não iria remover um pedaço do Belgrano para expor num museu em Londres".[46] John Bredar, produtor executivo do documentário, considerou tais preocupações infundadas. "Nunca tivemos intenção de recuperar seja o que fosse", afirmou.[46][65] "A lei argentina é bastante clara quanto à não perturbação do local. É um túmulo, e o trataremos como tal".[46]

O fato de dois dos membros da expedição serem veteranos do HMS Conqueror também foi alvo de acesos protestos por parte dos grupos de veteranos argentinos. "Não se leva o carrasco de volta à cena do crime. É uma ofensa à memória dos mortos que a expedição inclua membros da tripulação do submarino que criminalmente afundou o Belgrano", afirmou Rubén Rada. Em resposta, John Bredar disse que "o nosso objetivo não é fazer uma história geopolítica mas sim personalizar a história do Belgrano e contá-la a um público mais alargado. Você não consegue fazer isso se só levar veteranos de um dos lados".[46]

Ver também

Referências

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  3. El Belgrano vive (Documentário). Argentina: Centro televisivo Marín  Parâmetro desconhecido |ano2= ignorado (|ano=) sugerido (ajuda); Parâmetro desconhecido |hora= ignorado (|tempo=) sugerido (ajuda); Parâmetro desconhecido |data de acesso= ignorado (ajuda)
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Leitura adicional

  • Bonzo, Héctor (1991). 1093 Tripulantes del Crucero ARA General Belgrano. Testimonio y homenaje de su comandante (em castelhano). Buenos Aires: IPN Editores. ISBN 9508990309 
  • Freedman, Lawrence (2005). The Official History of the Falklands Campaign (em inglês). 2. Londres: Routledge. ISBN 0714652075  Parâmetro desconhecido |volumes= ignorado (|volume=) sugerido (ajuda)
  • Gavshon, Arthur; Rice, Desmond (1984). The Sinking of the Belgrano (em inglês). Londres: Secker & Warburg. ISBN 0-436-41332-9 
  • Mayorga, Horacio (1998). No vencidos (em castelhano). Buenos Aires: Planeta. ISBN 950742976X 
  • Middlebrook, Martin (1989). The Fight for the "Malvinas": The Argentine Forces in the Falklands War (em inglês). Londres: Viking. ISBN 0-670-82106-3 
  • Tondini, Bruno (2007). Malvinas. Historia, aspectos jurídicos y económicos (em castelhano). La Plata: Elortiba. ISBN 978-84-690-6590-7 
  • Woodward, Sandy (2003). One hundred days. The memoirs of the Falklands Battle Group Commander (em inglês). Londres: HarperCollins. ISBN 0-00-713467-3 

Ligações externas