Fantasia (Magrebe)

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Quadro de Eugène Delacroix mostrando uma fantasia em Marrocos
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Fantasia é o nome dado a diversos espetáculos equestres tradicionais que simulam assanltos militares, praticados essencialmente no Magrebe, onde também são chamados "jogos de pólvora" ou "jogos dos cavalos".

Usualmente consiste em evoluções equestres durante as quais os cavaleiros, munidos de espingardas de pólvora negra e cavalgando montadas ricamente ajaezadas, simulam uma carga de cavalaria em que a apoteose é o disparo coordenado duma salva com as armas de fogo. Em algumas regiões, a fantasia pode ser executada com dromedários ou a pé.

Herdeira da arte equestre árabe, turca e berbere, a sua prática é atestada desde o século XVI e foi testemunhada por viajantes no Magrebe no fim do século XVIII. O nome de fantasia surgiu em 1832, graças ao pintor francês Eugène Delacroix, que pintou alguns espetáculos de fantasia nos seus quadros. Depois disso tornou-se um dos temas prediletos de alguns pintores orientalistas como Eugène Fromentin ou Marià Fortuny. A fantasia é um evento comum nas festividades mais importantes, como casamentos, nascimentos, festas religiosas, etc., apesar de atualmente também poder ser um espetáculo para turistas.

Etimologia

Os espetáculos chamados no Magrebe laâb el baroud ou lab-el-baroud (لعب البارود em árabe; "jogo da pólvora") ou laâb el-kheil (لعب الخيل; "jogo dos cavalos") tomam o nome de fantasia devido a um equívoco.

A palavra tem origem no termo grego phantasia (φαντασια), que passou para o latim e italiano como designação de um "espetáculo imaginário" e uma "faculdade de conceber imagens". Segundo outra versão, a origem da palavra o termo espanhol fantasía, que significa "imaginação", mas também "vaidade ou arrogância". Na fala magrebina, o termo toma o sentido de algo vistoso, aparatoso ou glorioso. Foi o pintor francês Eugène Delacroix que usou erroneamente o termo "fantasia" aplicado aos espetáculos equestres tradicionais. André Lanly avançou uma hipótese que o pintor pode ter ouvido ouvido o termo como qualificativo do nome, tê-lo anotado no seu desenho ou na memória e tê-lo tomado pelo próprio nome.

Segundo outra versão, o uso do termo fantasia resulta duma confusão de palavras em árabe clássico com a mesma raiz verbal: khayal, que significa "imaginação", e "khayyal", que significa "cavaleiros".

O termo foi escrito no passado como "fantazia" ou "phantasia". Este último termo foi usado por um viajante francês em 1838 a jogos equestres distintos da fantasia realizados na região de Orão, a que esse viajante também chama "justas militares".

História

A história da fantasia é a o encontro em terras norte-africanas do homem e do cavalo. Foram encontrados restos de ossos de equídeos da espécie Equus caballus algericus que datam de há 40 000 anos e há gravuras rupestres no Atlas Saariano que datam de 9 000 a.C. que atestam a presença do cavalo no Magrebe, um ancestral da raça indígena atual do cavalo berbere.

Dócil, rústico, resistente, mas sobretudo rápido, este cavalo fez a glória doscavaleiros númidas, considerados os melhores cavaleiros do mundo na época das Guerras Púnicas, nomeadamente graças à técnica de combate por perseguição à base de cargas e de viragens rápidas que eles desenvolveram. Essa tática de ataque e fuga, chamada el-kerr ul-ferr, é retomada pelos árabes, cujos "cavaleiros se precipitam deitados de bruços sobre os dorsos dos cavalos, lançando gritos, descarregam as suas armas, dão meia-volta imediatamente, partem a galope, recarregam a espingarda e voltam ao ataque.

É essa técnica que origina a fantasia. Frequentemente qualificado como uma imagem da guerra, uma demonstração ritual de força e de coragem, ou mesmo uma metáfora de um confronto erótico, ela representa sobretudo os vestígios, a versão adocicada moderna, da arte de equitação árabe-turca-berbere da África do Norte.

A representação mais antiga que se conhece duma fantasia é um desenho do século XVI atribuído ao pintor flamengo Jan Vermeyen(1500-1559) intitulado a posteriori "Uma fantasia em Tunes" e outros dois desenhos seus intitulados "Torneio militar em Tunes". Todos os desenhos foram executados durante a conquista de Tunes em 1535 pelo imperador Carlos&nbs;V.

É preciso esperar pelo fim do século XVIII para que sejam publicadas as primeiras descrições do que depois se viria a chamar fantasia: de [Louis de Chénier]], diplomata ao serviço do rei Luís XVI de França, em 1787, pelo abade e explorador francês Jean-Louis Marie Poiret, em 1789, e pela Encyclopædia Britannica em 1797.

A 6 de março de 1832, Eugène Delacroix acompanha o conde Charles-Édgar de Mornay na sua embaixada junto do sultão marroquino e assiste ao seus primeiros "jogos de pólvora", na região de Gharb, na estrada de Meknès. Verá outros jogos em Alcácer-Quibir (Ksar El Kebir) e depois em Meknès, e toma nota o esplendor do espetáculo no seu diário:

A nossa entrada em Meknès foi de uma beleza extrema, é um prazer que se pode esperar só experimentar uma só vez na vida. Tudo oq ue nos aconteceu naquele dia não foi mais do que o culminar daquilo para que nos tinha preparado o caminho. A cada instante encontrávamos novas tribos armadas que faziam uma descarga de pólvora aterrorizante para festejar a nossa chegada.
 
Diário de Eugène Delacroix, 1832.

De volta a França, Delacroix executou uma aguarela (que atualmente se encontra no Museu do Louvre) mostrando as cenas a que ele tinha assistido e intitulada Fantasia ou Jogo da Pólvora diante da porta de entrada da cidade de Mequinez . Seguidamente executa outras três fantasias: em 1832, Exercices militaires des Marocains ou Fantasia marocaine, atualmente no Museu Fabre de Montpellier; em 1833, Fantasia árabe, atualmente no Instituto de Arte Städel de Frankfurt; em em 1847, Fantasia marroquina, atualmente no Museu Oskar Reinhart de Winterthur. Foi desta froma que o termo fantasia se tornou sinónimo de "jogo da pólvora".

Na época estava então em voga o Orientalismo; que nas palavras de Victor Hugo: «no século de Luís XIV era-se helenista, agora é-se orientalista.» Serão numerosos os artista que comporão quadros admiráveis de fantasias, entre os quais Eugène Fromentin, Aimé Morot, Théo van Rysselberghe, entre outros.

Longe de estar limitado ao Magrebe, a prática da fantasia é atestada no século XIX em toda a África do Norte, estendendo-se duma parte do Egito a oriente, até Marrocos a ocidente, e da Tunísia a norte até ao norte do Senegal e Chade a sul. Mas talvez o local mais surpreendente onde se praticou a fantasia foi a Nova Caledónia, onde chegou com os deportados argelinos no final do século XIX.

Uma fantasia que ficou famosa foi a organizada em honra de Napoleão III de França a 18 de setembro de 1860, na Maison-Carrée, nos arredores de Argel, na qual participaram entre seis e dez mil cavaleiros.

Características e descrição

Celebração

A fantasia está tradicionalmente ligada a festividades, das quais ela constitui o ornamento supremo. É celebrada por ocasião de certos rituais, como moussems, vaada, zerda ou taam, festas anuais dedicadas a uma figura que alguns consideram santo, durante as quais são sacrificados animais e organizados grandes festins. Também se organizam fantasias em algumas festas mais marcadamente muçulmanas, como o Eid ul-Fitr, que marca o fim do Ramadão, ou o Mouloud, que celebra o nascimento do Profeta Maomé; ou ainda em casamentos, nomeadamente para escoltar a noiva ao seu novo domicílio; nascimentos e peregrinações. Outros motivos para a realização duma fantasia são homenagens a chefes ou notáveis.

No entanto, atualmente a prática da fantasia tomou um aspeto mais turístico do que autenticamente folclórico.

Aparato

Sinónimo de aparência exterior, de parada, de magnificência da postura e do luxo do vestuário, a fantasia caracteriza-se em primeiro lugar pela importância do aparato, pela riqueza e esplendor da roupa do cavaleiro, do seu equipamento e dos arreios do seu cavalo. Os equipamentos mais importantes do cavaleiro são o moukhala, a espingarda de pólvora negra magrebina, uma arma de pequeno calibre com um cano muito longo, muito característica devido aos seus ornamentos cintilantes e incrustações de osso, marfim, madrepérola ou metal e gravações coloridas. O cavaleiro pode igualmente equipar-se com um iatagã. O fausto dos arreios traduz-se, por exemplo, em selas de "marroquino" (couro) vermelho bordadas artisticamente ou damasquinadas ou incrustadas a ouro; gualdrapa (manta do dorso, onde assenta a sela) de seda de Tunes; estribos prateados, etc.